João Oliveira: Histórias à Volta do Mundo.
Notícia 89 - 2010-01-21 17:55:27
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João Oliveira, o viajante que partiu de Alcochete rumo a 17 meses à volta do mundo, está de volta.
João não se divorciou do seu mundo, não fugiu de nada, foi simplesmente dar uma volta ao mundo, alargar horizontes e realizar o seu sonho, com um único objectivo: ser feliz.
João aceitou o repto do Cadernos de Viagens e deu-nos a conhecer um pouco mais do seu percurso de vida. Conheça os interesses, motivações e experiências deste verdadeiro cidadão do mundo numa entrevista a não perder.
O seu percurso de vida foi absolutamente normal, estudou, formou-se... mas as viagens sempre fizeram parte da sua vida, quando surgiu essa paixão por partir à descoberta de outros lugares?
Eu acho que desde miúdo sempre gostei do desconhecido. No verão antes de entrar para a Faculdade, parti os mealheiros, juntei as economias feitas de sobras de mesadas da infância e fui fazer um Inter-rail na Europa com o meu irmão Pedro. Claro que o dinheiro não chegou para um mês de viagem... e acabámos os últimos dias a dormir em comboios e a comer três vezes por dia pão com marmelada. Mas quando regressei já era uma pessoa diferente. Procurei um emprego em part-time e no verão seguinte partia novamente de comboio pela Europa.
Isto foi em 1992. Nessa altura o Mundo não era ainda tão global nem tão digital, os cartões multibanco só funcionavam em Portugal, a Internet começava apenas a surgir, ainda existiam fronteiras e diferenças na Europa. Percebi depressa, em oposição a muitos colegas de faculdade que se focavam em comprar carro e planear a sua vida profissional no minúsculo contexto nacional, que ao viajar alargava indescritivelmente o horizonte e regressava mais amplo, mais livre e mais apto. A amplitude, a liberdade e o conhecimento são, para quem já os experimentou, viciantes.
Antes de embarcar nesta volta ao mundo, fez muitas outras viagens, revele-nos algumas que o tenham marcado especialmente.
Sarajevo porque me apaixonei. Rwanda porque senti a dimensão da crueldade de que somos capazes. Islândia porque me comovi pela primeira vez com uma paisagem. Quénia porque me esmagou assistir à chegada da "Great Migration" ao Masai-Mara. Uganda porque sobrevivi às nascentes do Nilo. Everest porque é o sitio mais bonito e sagrado do mundo.
Deixar tudo para fazer uma volta ao mundo implica uma série de cedências e condições. Não deve ser fácil de um momento para o outro deixar o trabalho e as despesas e simplesmente partir sem destino, fale-nos um pouco desse processo e da sua decisão.
Eu não parti sem destino. Há gente, que conheci e respeito, que o faz pelos mais variados motivos. Não foi o meu caso. Eu sabia o que queria conhecer e experimentar, mas parti sobretudo sem limite de tempo e sem planos detalhados. A minha viagem, o meu interesse pelo resto do mundo, não representa um divórcio do mundo a que pertenço.
Por outro lado eu também acho que não "deixei" nada. De facto fui obrigado a estudar a melhor forma de reorganizar a logística da minha vida pessoal, não para deixar o que seja, mas para somar mais a mim próprio. Há quem tome decisões igualmente difíceis por amor, para tirar um MBA ou prosseguir a carreira no estrangeiro. Eu fui dar a Volta ao Mundo.
Todas as decisões são difíceis, todas as escolhas implicam perdas, todas têm consequências. Acredito no entanto que o sentido da existência é a Felicidade e a minha Felicidade não está em acumular bens materiais mas em viver o meu tempo e o meu mundo. Tomando consciência disto, foi uma questão de racionalmente perceber qual a melhor forma de ultrapassar os obstáculos e adversidades que nos separam a todos, incondicionalmente, dos nossos sonhos.
Conheço muita gente que vive os seus sonhos, que embora menos "mediáticos" são tão nobres ou válidos como este que realizei. Fazem cedências e lutam diariamente por esses sonhos, sejam eles criar um filho, gerir um negócio, vencer um preconceito ou as limitações de uma doença crónica. Conheço infelizmente ainda mais gente que anda um pouco à deriva do que é mais fácil e sobretudo confortável, mesmo que isso seja, por exemplo, viajar. Guardo toda a minha admiração para os primeiros.
Conte-nos o seu percurso nesta volta ao mundo, por onde começou, como se deslocou, quantos países visitou?

Esta aventura prolongou-se por 17 meses e percorreu 22 países. Comecei pelo Irão, depois a Índia, o Sudoeste Asiático (Tailândia, Laos, Cambodja), Malásia, Indonésia, Timor, Austrália, Califórnia, México, América Central (Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Panamá), Colômbia, Peru, Bolívia, Chile, Argentina e Brasil.
À saída de Lisboa comprei um bilhete aéreo de Volta ao Mundo que cobria os continentes/regiões que pretendia visitar. Uma vez chegado a cada destino recorri aos transportes mais "lógicos" localmente. Voei em companhias lowcost (daquelas que são desconhecidas até caírem numa qualquer ilha indonésia...) de barco, de yate, de canoa, de bicicleta, de mota, a cavalo, de comboio, de autocarro, de minibus, de táxi, de descapotável, em carrinhas de caixa aberta, à boleia e, sempre que possível, a pé.
De tudo o que se retira deste tipo de viagem, o que considera mais importante, a experiência cultural, o lazer, o contacto humano...
Não são as paisagens que nos mudam, são as pessoas. Mais importante que o percurso geográfico, esta viagem foi um percurso humano, uma viagem pessoal dentro de mim, das minhas prévias opiniões, perspectivas, conhecimentos e preconceitos. São as pessoas que encontramos que, se deixarmos, nos oferecem o mais importante.
Qual o país que mais o marco
u e por que motivos?
Timor-Leste. Não apenas pela estonteante beleza da ilha, mas pelo amor com que fui recebido pelo seu povo. Ninguém consegue imaginar o que significa ser Português em Timor. E o mais bonito, é que a hospitalidade e carinho que nos oferecem apenas com base na nossa nacionalidade não se baseia numa colonização palerma que terminou à mais de 30 anos mas na consciência de nunca os termos esquecido, na gratidão pelo excelente trabalho que militares e cooperantes portugueses ali realizam, diariamente, desde a independência. De alguma forma, Timor renovou o meu amor pelo nosso povo.
Agora está em Portugal. A volta já acabou, ou está apenas a recuperar energias?
Esta viagem está concluída e será capítulo encerrado depois de formalmente apresentada à Sociedade de Geografia de Lisboa no dia 29 de Janeiro. Eu continuo a aprender muito sobre mim próprio... por isso quanto ao futuro, apenas sei que permaneço viciado na amplitude, na liberdade e no conhecimento. Para já, o meu plano é empenhar-me como voluntário num projecto humanitário. É me impossível, depois de testemunhar tanto sofrimento, injustiça, carência em geral, regressar a um negócio tão ambicioso como o é a Indústria Farmacêutica.
Uma vez afirmou que o seu blog era uma forma de não partir sozinho nesta aventura.
Ele foi realmente o seu elo de ligação às pessoas que deixou em Portugal?
Sim. Acho que o site foi uma excelente ideia. Desde que regressei percebi, quando me reencontro com os meus amigos de sempre, que o site lhes permitiu acompanhar-me à volta do mundo. Nunca tenho de contar a minha viagem do zero: a conversa começa logo em alguma das crónicas, ou fotografias, que mais os impressionaram.
Foi também uma ponte para conhecer muitos outros viajantes que ao tomarem conhecimento desta aventura me escreveram com conselhos e palavras de estímulo. O site (www.emviagem.net) somou mais de 40.000 visitas. Recordo em particular quando um Leitor me escreveu a contar que tinha estado internado e que então a mulher lhe imprimia as crónicas para ele ler no Hospital. Percebi nesse momento que de facto não estava a viajar sozinho.
Diga-nos um destino que ainda lhe falte conhecer, mas que não pode deixar de visitar.
Moçambique.





